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sábado, 11 de fevereiro de 2017

Livro de Artista - 2009 - Interstício 08

aos 18 anos, tinha qualquer coisa meio ufóloga em minhas produções e uma vontade imensa de fazer contatos extraterrenos.











segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Travessia


Para que direção corre o curso da vida? Para cima, para baixo, para um lado, para o outro, para frente ou para trás? Ou corre para lugar nenhum? Então, observe apenas, não interrompa e nem interfira. Deixe-o simplesmente correr, não importa para onde. O que importa é estar nele, é ser ele mesmo, pois esse é o nosso destino, a nossa eterna condição. Não te arremesses no amanhã, no que desejas vir a ser, nem te agarres no passado, no que já foi e não voltará; são meras fugas e ilusões. O que tu tens de concreto e não importa o que te aconteças é este instante; não tentes escapar dele, viva-o com plenitude e coragem. Esgote-o! Ele é a tua única realidade, mesmo que nada seja real.

Por que se agarrar à vida? Agarrar-se à vida é perdê-la. A vida é um processo. É um fluxo eterno. É um estar indo, não importa para onde, mesmo se for para lugar nenhum. Vá com a vida. Deixa de olhar para o teu umbigo como se fosse o centro do mundo. O teu destino pessoal não tens a mínima importância, pois tu és apenas um fenômeno passageiro e ilusório, uma emanação do que és, sempre foste, e sempre serás: a eterna existência. Desperta, homem! Aí então saberás que esta eternidade és tu mesmo e tudo mais que existe. Não penses que o mundo gira em torno de ti! Quão pequenina e fugaz é a tua megalomania dentro da Natureza. Enquanto estiveres cheio das tuas coisas, tesouros, paixões, posses, desejos, sofrimentos, deuses e ilusões, enfim, do teu próprio ego que carregas em vão, tu estarás no NADA, no sem sentido, na ilusão.

Corri como um louco em busca da felicidade e trouxe apenas as mãos vazias pendentes de ilusões. Caminhei então, devagar, em busca do meu próprio destino e hoje trago as mãos cheias carregadas de vida. Me aconteci, me manifestei, me existi. Sou um ser que está fora. Para fora estão os meus olhos que percebem as ilusões do mundo. De fora entra o ar que respiro e mantém o meu alento. Lá fora é que estão o céu e o inferno, os santos e os demônios, os que me envolvem de amor e os que me sufocam de tanto ódio. Como então posso retornar para dentro? Desde o princípio que nunca principiou, pois sempre foi, é e será, eu sou. Não há caminho a se percorrer, algum Deus a se buscar ou iluminação a se alcançar. Tudo já está pronto como sempre esteve. Apenas abra os olhos porque então o desmistério acontece, se revela o que era irrevelado, face à minha ignorância, minhas perdições, meus pecados, minhas ilusões! Desde o princípio eu sou.

Porque não existe nem o dentro, nem o fora, apenas o ser aqui e agora. De que estão se busca sentido? Eu venho de lugar nenhum e vou para nenhum lugar.

Agora deixarei o mistério acontecer por si mesmo e se auto desvelar a cada instante por toda a eternidade. Agora relaxarei profundamente e cessarei essa tentativa ansiosa, desesperada e sofrida de querer desvelar o mistério e tudo ser em vão. Agora viverei a vida que está presente e que a cada instante acontece e desacontece, não importando seu destino e sua razão de ser.

Não olhes para o alto em busca de soluções porque o alto é apenas uma distância vazia e inexpressiva. Não olhes para a esquerda ou para a direita porque são apenas posições relativas. Não olhes para trás, pois apenas entortarás a cabeça em busca de um passado que não retorna jamais. Não olhes para frente, pois seguirás em vão tua estrada sem rumo e sem destino que te conduzirás à morte. Olhe então para dentro de ti, pois ai estará a solução. De que? Só tu saberás!

Eu sei (ou quase sei) que estou lá ou aqui – pouco importa. O mundo é uma ilusão.

[texto de Ildegardo Rosa & Emmanuel Mirdad ]

terça-feira, 26 de julho de 2016

terça-feira, 19 de julho de 2016

crítica do poeta Darlon Silva ao trabalho "Carta ao Desconhecido 84" (2014) da série "Correspondências - Cartas ao Desconhecido"


Com um metadiscurso sobre uma caixa de papelão, Juca Lordelo em cartas ao desconhecido 84, faz um discurso denunciando a subjetividade do indivíduo. O olhar cabisbaixo de alguém introspectivo, centrado somente em um apito em forma de pássaro alaranjado. O pássaro é uma ideia embutida, e não há nada mais ameaçador que essa ideia. Isso faz com que além da imagem o apito tenha uma res extensa na obra. O pássaro é o solipsismo, a dúvida hiperbólica que faz do homem um ser sempre sozinho.

As peças apontam a um estilhaço e nunca a um todo formado. Esse desmembramento só se atualiza quando alguém se indaga sobre a obra. O fato de estar sobre uma caixa, já indica um desmembramento, que intenciona a incerteza. Recortes colados em fitas adesivas desdobram o metadiscurso como na montagem da envoltura da embalagem. Na medida em que se indaga sobre a obra o eu se remonta.

Ao reconciliar todas as partes, o todo da sua presença reconhece a alteridade de modo distinto. A pena significa o peso do que é o outro, apenas o eu pode ser dito pesado. O eu pode estar embutido na sua mais profundidade, mas o outro enquanto outro só se revela na sua leveza de ser. Não se leva mais nenhum fardo transcendental, a inclusão da pena tem uma função niilista. O eu que indaga é criador da própria consciência da obra.

O pássaro é o maior símbolo associado à consciência, não só porque voa, mas por ser também fonador. Só há consciência de fato quando o eu nomeia, ou quando ele assim se estende ao já conhecido. E há um paradoxo terrível nisso, o absurdo de conhecer o desconhecido. O homem só é homem porque nomeia, no entanto quando nomeia deixa de ser, surge então o paradoxo, que faz do homem um ser sempre sozinho.

De seu próprio interior, Juca Lordelo, apela a um realismo epistolar de tentar se comunicar com o desconhecido. Não sendo a primeira carta, mas a octogésima quarta, será que alcançou aquele que não conhecemos, o tal Desconhecido?

Darlon Silva,
poeta



(detalhe do público interagindo com o áudio da obra) / carta